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19 • 12 • 2011
Varejo mira na classe C e aprova mais de um cartão por compra

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RIO – De olho no fôlego da nova classe média para o consumo, as empresas estão distribuindo o pagamento dos produtos em mais de um cartão de crédito para burlar o obstáculo da renda. Embora ainda seja uma modalidade desconhecida do grande público, a estratégia já é adotada nas lojas e sites de grandes redes varejistas como a Ricardo Eletro e o Ponto Frio, sobretudo na oferta de eletrodomésticos e eletroeletrônicos pela internet. A estratégia tem um alvo certo: pessoas que têm limite baixo no cartão e que precisam aumentar o poder de fogo na compras de produtos mais caros, como TV, geladeira e fogão, os maiores sonhos de consumo da classe C.

A faxineira Raimunda Jucely Martim Marques, moradora da Rocinha, não conhecia a opção. Com dois cartões de crédito com limite de até R$ 600, ela costuma recorrer a amigos, com limite maior, quando precisa comprar um bem mais caro. Neste Natal, Raimunda planeja comprar um armário de cozinha e já sabe como.

-Sempre compro parcelado porque quando a gente paga aluguel fica difícil comprar de uma vez só – afirma.

A assessora executiva do Procon-SP Vera Remedi alerta, porém, que o consumidor deve redobrar o cuidado em compras com mais de um cartão.

-Os maiores vilões (da inadimplência) são o cartão de crédito e o cheque especial. As pessoas não se dão conta de quanto mais parcelam, mais podem perder o controle – afirma. -Todas essas facilidades no mercado têm que ser olhadas com muito cuidado – acrescenta.


Aéreas popularizam venda de passagem em quiosque


As companhias aéreas são outras que estão lançando estratégias para a nova classe média. Gol, TAM e Webjet passaram a comercializar passagens também em metrôs, centros populares e lojas do varejo. Há menos de um mês com quiosque na Central do Brasil, a Gol registra uma média de cem bilhetes vendidos todos os dias e tem planos de ampliação desses pontos de venda.

-Era um público que não estava sendo atingido pela internet e que prefere encontrar o vendedor olho no olho para tirar dúvidas e traduzir o que não entende - afirma o gerente comercial da Nova Classe Média da Gol Linhas Aéreas, André Matos.

Matos afirma que a Gol quer fazer da classe C a maioria do seu público consumidor (mais de 60%) até o fim do ano que vem. Atualmente ela corresponde a 47% da clientela da companhia, sendo que 10% desses estão pegando o avião pela primeira vez. Segundo Matos, o novo público já vive uma mudança de comportamento no consumo.

-Como é um público que estava acostumado a andar de ônibus, ele juntava dinheiro para viajar e agora está se deparando com o crédito, a Gol parcela voos em até 36 vezes – afirma.

Para a socióloga Leticia Veloso, da UFF, a Classe C já estabelece suas próprias estratégias na compra de bens.

-Esse público está diversificando as formas de consumo e a internet veio para facilitar. Muitos já usam mais de um cartão para compras ou é comum que vários membros da família se unam para comprar um bem juntos – afirma.


Redução de IPI deve turbinar vendas do Natal


Para especialistas, a formalização do emprego, o maior acesso a ferramentas de crédito, como o cartão, e as medidas anunciadas em dezembro de redução do IPI sobre a linha branca devem turbinar o Natal deste ano. Pelos cálculos da Fecomércio-RJ, as vendas dos produtos da linha branca devem subir 26,20% nos próximos seis meses na região metropolitana do Rio. É uma projeção mais generosa já que a alta de 21,73%esperada antes do anúncio dos incentivos fiscais.

A Fecomércio estima que as vendas do comércio varejista em todo o país devam experimentar um incremento de 7,2% sobre 2010, quase um ponto percentual acima do que era esperado antes das medidas de desoneração.

-A classe C manteve a perspectiva de otimismo e há um grande número de consumidores. É um Natal mais democrático, o mais forte dos últimos três anos – afirma Orlando Diniz, presidente da entidade.

Para a advogada Ellen Gonçalves, do Pires & Gonçalves Advogados Associados, o fato de a nova classe média consumir um produto durável é uma amostra de cidadania. Ela frisa, no entanto, que é preciso que fornecedores, empresas e órgãos públicos desenvolvam uma educação para o consumo.

-É preciso haver campanhas educativas para que haja um consumo consciente. Existe uma demanda por crédito muito grande e é necessário que as pessoas não deem um passo maior que as pernas - considera.